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Resenha: Memória corporal: O Simbolismo do Corpo na Trajetória da Vida



Em Memória corporal: o simbolismo do corpo na trajetória da vida, Irene Gaeta investiga, no decorrer de cinco capítulos, a memória corporal durante o processo de envelhecimento. A autora explora, em sua pesquisa, as transformações físicas ocorridas na temporalidade e o envelhecer como um processo rico em significações.

Segundo a pesquisadora, o envelhecimento não deve ser tomado como um processo de declínio físico, mas como a oportunidade de o ser humano alcançar a realização de Si mesmo. Em um momento em que nossa sociedade investe científica e financeiramente no prolongamento de nossas vidas, o livro aborda as experiências de aprendizagem significativas ocorridas no envelhecer.

Partindo da experiência de 30 anos, operando com técnicas expressivas vinculadas ao trabalho corporal, a pesquisadora constata e avalia as marcas do tempo registradas no corpo. Essas marcas são, em sua maioria, inconscientes e acabam por influenciar diretamente o comportamento humano.

Tacitamente, o estudo objetiva demonstrar como as marcas do corpo revelam memórias portadoras de conteúdos físicos, psíquicos e sociais, investigar as variedades de fenômenos registrados pela historicidade corporal, analisar o que as memórias corporais revelam sobre os idosos, bem como as possibilidades de ressignificação necessárias para a promoção da saúde.

No primeiro capítulo, Contribuições sobre questões contemporâneas, a autora demonstra que o envelhecer configura uma problemática típica da modernidade. Apesar de os avanços tecnológicos garantirem o prolongamento da vida, o envelhecimento é visto como um tabu, algo que deve ser negado. Qual o lugar do idoso em uma sociedade que exige vigor juvenil perpétuo para a manutenção do sistema de produção? A autora postula que precisamos compreender o envelhecimento como um evento dinâmico e evoca a necessidade de uma mudança paradigmática nas pesquisas científicas. Defende a complexidade e a interação entre as diversas áreas do saber para a melhor compreensão de fenômenos como o envelhecimento.

No capítulo seguinte, Metanoia: o desenvolvimento humano na segunda metade da vida, a pesquisadora demonstra a necessidade de transformação do pensamento, para que o indivíduo possa mudar sua vida. A autora rememora os mitos de Ivanna e Maat para ilustrar os estádios de transformação da alma. Sumariamente, Gaeta defende que as experiências devem ser somadas e integradas para o desenvolvimento do psiquismo.

O terceiro capítulo, Sobre a memória, o registro mnemônico é concebido como um mapa corporal, repleto de informações sobre as dores, amores e sentimentos significativos para a constituição do psiquismo. A autora esquadrinha os tipos de memória e diferencia três aspectos: a memória individual, a memória implícita e a memória corporal. Para a pesquisadora, o corpo é compreendido como a expressão física da psique, um espaço simbólico e fonte de informações sobre a historicidade do ser. 

No capítulo 4, O simbolismo do corpo pela mediação da arte, a corporeidade é concebida como um instrumento de relacionamento entre o biológico e a cultura. Sendo assim, o corpo torna-se um veículo de expressão das memórias conscientes e inconscientes. Conhecedora das técnicas expressivas, Irene Gaeta postula as práticas artísticas como ações criadoras. Dentro dessa perspectiva, a arte possui a capacidade terapêutica de mobilizar e elaborar conteúdos psíquicos. A partir dessas afirmações, com ênfase na memória corporal e nas práticas artísticas, a autora efetua articulações sobre técnicas expressivas como: práticas de relaxamento e respiração; uso da argila; desenhos como linguagem e processos criativos; as mandalas e asanas, danças espontâneas e jogos lúdicos. 

No quinto capítulo, As entrevistas: os sujeitos como interpretadores de si mesmos, a pesquisadora, com base na antropologia, reproduz as entrevistas dadas pelos próprios sujeitos participantes do projeto. Após relatos tocantes e ilustrativos, o trabalho objetiva demonstrar como a prática artística pode recuperar a autonomia, promover sujeitos completos e senhores da própria história, pois a memória é mais do que a capacidade de recuperar informações do passado, é doadora de sentido para os próprios eventos futuros.

Por fim, a autora conclui que a vida não é um fato irrevogável, mas uma interpretação da memória sujeita a novas elaborações e formulações. Em sua ilação final, chama a atenção para a importância da continuidade dos estudos sobre a memória e a necessidade de novas perspectivas teóricas que respeitem a complexidade humana.

A obra aporta uma linguagem didática e fluente, oferecendo ao leitor bases teóricas e metodológicas para a melhor compreensão dos fenômenos que tangem a memória e o processo de envelhecimento. Material de suma importância para a construção de uma nova ciência como a gerontologia e para o aperfeiçoamento dos profissionais da área psi.

Autor: Charles Willians Silveira 
Minicurrículo: Psicólogo com Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Membro da equipe comercial da Vetor Editora. 

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